Apocalipse 2.8-11 - UMA IGREJA POBRE, CONFORTADA PELO CRISTO VITORIOSO

8 Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver:
9 Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás.
10 Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.
11 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte.

Introdução

A Etimologia do nome da cidade: Esmirna=Mirra. Mirra é uma substância extraída de uma árvore espinhosa que gosta de ficar ao sol. Dela se extrai perfume, tem uma resina que produz medicamentos e ela serve para auxiliar no embalsamento.


Elucidação

Este texto que acabamos de ler é a segunda carta das sete enviadas às igrejas na Ásia Menor. Em todas as cartas é o próprio Senhor Jesus Cristo que escreve através do seu apóstolo João. Ele é aquele que está andando no meio dos candeeiros, que são as igrejas (2.1). Ele é o dono delas. E por isso, Ele pode, tanto exortar como advertir, animar como ameaçar.
           Esta segunda carta foi dirigida à igreja em Esmirna. Esmirna era uma bela cidade. Ela era rival da cidade de Éfeso. Ela reivindicava o direito de ser a “primeira Cidade da Ásia em beleza”. Já que Éfeso ocupava este posto. Esmirna era uma cidade gloriosa. Ela com seus lindos edifícios públicos situados no alto da colina Pagos, formavam o que se chamava “a coroa de Esmirna”. A brisa ocidental vinda do mar soprava por toda cidade. Que mesmo durante o verão era uma cidade com um clima agradável. Desde o começo da ascensão do império romano, mesmo antes dos seus dias de grandeza, Esmirna era sua aliada e reconhecida como tal por Roma.
           Com toda probabilidade a igreja de Esmirna foi fundada por Paulo durante a sua terceira viagem missionária (At 19.10), entre 53 e 56 d. C. É possível que Policarpo fosse bispo da igreja de Esmirna naquela época. Ele foi discípulo de João. Fiel até à morte, este venerando líder foi queimado vivo num poste. “Deixem-me como estou. Aquele que me dá força para suportar o fogo também me dará capacidade para ficar imóvel na fogueira sem que precisem me amarrar” (Policarpo)¹. Esta igreja é uma das duas igrejas que o Senhor Jesus Cristo não critica e nem ameaça. A outra igreja é a de Filadélfia. Ela sendo fiel e sem motivo de ameaça, o Senhor se dirige de uma maneira a fortalecer ainda mais aquela igreja a permanecer firme. Ele se apresenta assim: “Ao anjo da Igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver”. Ele se apresenta a sua igreja amada como o Cristo vitorioso. Isto nos leva ao seguinte tema desta pregação:   




I – CRISTO APRESENTA-SE COMO SENHOR DA VIDA E DA MORTE, V 8.

Jesus diz acerca de si que é o primeiro e o último, o que esteve morto e tornou a viver.  Ele introduz a palavra de conforto àquela igreja lembrando a ela quem é o seu senhor. O dono da igreja é aquele que venceu a morte, aquele que ressuscitou. Eles necessitavam desse entendimento. Viviam em uma época de grande instabilidade, onde declarar-se cristão em alguns momentos poderia implicar perda de bens, separação da família ou até em morte. Nem sempre a perseguição vinha de forma oficial por parte do governo romano, às vezes eram perseguidos até pelos próprios judeus, ou pelos romanos de modo não oficial. Ser cristão então era muito diferente do que vivemos hoje no contexto do Brasil em pleno século XXI.
           A palavra de conforto neste versículo embora na época presente não nos toque coletivamente, com certeza nos fala de modo individual. A igreja não passa atualmente por perseguição por parte do Estado, mas cada um de nós podemos vivenciar momentos nos quais lembrar de Cristo como Senhor da vida e da morte traz conforto às nossas almas. Todos estamos sujeitos a passar por experiências da perda de entes familiares, e nestes momentos devemos lembrar que a vida pertence ao Senhor e que ele tem direito absoluto sobre cada uma de suas criaturas. Este conhecimento prévio nos capacita diante de situações que poderemos vivenciar.
           Mas o Senhor Jesus depois dessa introdução faz uma declaração maravilhosa sobre aquela igreja.


II – ELA É RICA INDEPENDENTEMENTE DE SEU ESTADO FINANCEIRO, V 9.

Materialmente aqueles irmãos eram pobres, embora vivendo em uma cidade rica. O termo utilizado aqui para pobreza é ptocheía, que tem o sentido de pobreza extrema, opressiva até. É a mesma expressão utilizada por Paulo em 2 Co 8.9: “...pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos”. O texto aos coríntios fala de riqueza, mas obviamente em sentido espiritual. Era o caso daqueles irmãos de Esmirna, embora pobres materialmente, mas vivenciando uma riqueza na graça de Deus, ricos para com o Senhor. Eram ricos porque havia a presença de Deus em suas vidas. Eram ricos porque não eram dominados pela avareza (Lc 12.13-21 – Jesus reprova a avareza e diz que é louco aquele que “...entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus”, v 21).
           Aqueles irmãos de Esmirna eram ricos porque buscavam viver a fidelidade ao Senhor, mesmo em meio a tribulação de perseguição por parte dos falsos judeus e a despeito da escacês material.
           No contexto deles, além de sua pobreza material extrema tinham de enfrentar a “blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás”. Os judeus difamavam o Messias e negavam a sua vinda. Esses judeus desprezaram com toda sua força o Cristo. Eles alimentavam um ódio maligno contra os cristãos. Eles arrastavam os cristãos diante dos tribunais e os acusavam injustamente. São chamados de falsos judeus porque os verdadeiros judeus são os verdadeiros herdeiros da promessa dada a Abraão, ou seja, o Israel espiritual, a igreja de Cristo formado por judeus e não judeus, portanto os verdadeiros judeus no sentido de povo de Deus. De igual modo há muitos hoje que se declaram cristãos, contudo, são antes Casa do Diabo, pois não querem para suas vidas a riqueza espiritual ofertada por Cristo, mas antes, a riqueza material ambicionada pela sua carnalidade e lhes ofertada pelo Diabo. Riqueza material sem riqueza da comunhão com Deus é ruína espiritual. Os irmãos de Esmirna sofriam pela pressão (perseguição) por parte desses judeus. À semelhança de Esmirna a igreja de nossos dias que de fato queira viver em fidelidade doutrinária estará sofrendo por observar tantas blasfêmias contra Cristo, muitas vezes que não se expressam de forma verbal, outras vezes supostamente falando em nome de Jesus, mas o conteúdo reprovável por Cristo.
           O Senhor ainda anuncia que mais tribulação viria sobe a vida daquela igreja, mas anima-os a serem corajosos.


III – ELA PROSSEGUIRÁ RICA AO VENCER AS PROVAÇÕES – O DIABO, V 10.

Aquela era uma igreja fiel, elogiada pelo Senhor por sua fidelidade. Então não é de se estranhar que padecessem perseguições, pois como escreveu o Apóstolo Paulo à Timóteo:  2 Timóteo 3.12: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos”. Mas é bom lembrar que não há conforto maior que saber da presença de Cristo em momentos assim, como ele mesmo disse, conforme relatado no cap. 14 de João, enviaria o Espírito, e, que, portanto, se faz presente pela atuação do Espírito na igreja. No mesmo capítulo há a promessa de sua vinda para levar a igreja para si, mas enquanto isso não ocorre certamente o Diabo fará forte oposição à igreja, e cabe a nós a fidelidade ao Senhor mesmo sob as condições mais desfavoráveis.
           O Senhor disse aqueles irmãos de Esmirna, que eles só iriam sofrer por dez dias. Isso significa um tempo definido. Eles deveriam guardar sua fé pura. Porque através daquele sofrimento, o Senhor estaria também provando aqueles crentes. Purificando e aumentando a fé daqueles fiéis.
           A promessa para o vencedor é a coroa da vida, a presença eterna com o Senhor. Que fique claro então que esta coroa é para todos os salvos, não diz respeito a uma recompensa especial para aqueles que foram perseguidos com risco de morte.  Mas é aqui um incentivo para prosseguir avante mesmo em face ao risco.
           Por fim, Ele reafirma a garantia mais importante para a vida da igreja, que não é que diz respeito a este mundo, mas à entrada triunfante nos céus.


IV – ELA ALCANÇARÁ RIQUEZA MAIOR NOS CÉUS, V 11.

Temos aqui reafirmada a certeza que em nossos corações de que modo algum passaremos pela segunda morte. Aqui há uma referência à declaração de condenação no juízo eterno. O dano da segunda morte não ocorrerá para a igreja, mas para aqueles que desprezaram o Senhor, e que esse desprezo é manifesto no seu comportamento como enfatiza Apocalipse 21. 8: “Quanto porém aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte”. 
           A igreja, porém, pelos méritos de Cristo tem o livramento dessa condenação garantida. Usufruirá da presença do Senhor eternamente. Não importa o quanto tenham sofrido, pois estarão finalmente de posse da felicidade perfeita. Estarão livres da natureza pecaminosa. Todo o sofrimento terá passado, e como nos diz a Palavra em uma linguagem muito bela: “E lhes enxugará dos olhos toda lágrima...” (Ap. 21.4).


Aplicação

1. Os cristãos de Esmirna foram literalmente esmagados, tornando-se um cheiro de perfume suave para Deus, mas jamais se desesperaram ou se entregaram ao materialismo. Existe, hoje, uma mensagem generalizada que o crente não pode sofrer. Existem “orações poderosas” para espantarem o fantasma do sofrimento da vida dos fiéis. No entanto, contrariando esse pensamento o apóstolo Paulo diz claramente: “Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desesperados. Perseguidos, mas não desamparados. Abatidos, mas não destruídos. Trazendo sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossos corpos”. 2 Co 4.8-10.

Rm 5.3 -  E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência,
Rm 12.12 -  Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração;
2 Co 1.4 -  Que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus.
2 Co 4.17 -  Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente;
At 14.22 -  Confirmando os ânimos dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé, pois que por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus.

2. Há tanto hoje que enfatizam a busca pela riqueza material, mas esquecem, ou negligenciam, ou deturpam malignamente a maravilhosa revelação que afirma não haver nada mais sublime do que a riqueza da presença de Deus em nossas vidas.

3. Como cristão certamente você virá a passar por mais provações em sua vida, mas digo para você: não se atemorize, olhe para a coroa da vida, ela é incorruptível, imarcessível (não murcha). Você um dia estará com o Senhor, e não há nada mais glorioso do que isso.


Conclusão

Que sejamos, meus irmãos, como aqueles crentes de Esmirna!
Perfume - O crente/Esmirna influencia o ambiente com os valores do cristianismo (perfume) mesmo quando passa por tribulações e sofrimentos pessoais.  “E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo, e por meio de nós manifesta em todo o lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem” (II Coríntios 2.14, 15).
Mendicamento - O crente/Esmirna com sua vida produz o bem para os que estão ao redor. Gera conforto e cura para os males da alma porque transmite paz.
Embalsamento - O crente/Esmirna conserva a sociedade por meio dos princípios cristãos de moral e conduta que possui. “Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens” (Mateus 5.13).



¹Que falem os primeiros cristãos

Apocalipse 2.1-7 - UMA IGREJA COM POTENCIAL, PORÉM MORIBUNDA



Introdução


                     1. Qual o potencial que você enxerga na sua igreja?
                      2. Até onde você imagina que podemos chegar?
                      3. O que você considera que é essencial não se perder nessa caminhada?


Elucidação

           O livro de Apocalipse foi escrito pelo Apóstolo João quando se encontrava preso na ilha de Patmos devido à perseguição ao evangelho. Foi o último livro do N. T. a ser escrito, por volta de 90-96 d. C. João escreve as cartas às igrejas da Ásia, repreendendo a transigência ao pecado por parte dessas igrejas e chamando-as ao arrependimento. Também busca encorajar os irmãos a permanecerem firmes naquele momento de perseguição que a igreja estava sofrendo. Também trás a revelação dos acontecimentos dos últimos dias. É o livro de maior dificuldade de interpretação do N. T.
           No texto em apreço são dirigidas palavras à igreja de Éfeso. A cidade de Éfeso era uma cidade muito importante. Era rica e próspera, magnificente e formosa, devido a seu templo da deusa Diana. Ela tinha capacidade para aportar os maiores navios. Além disto, era facilmente acessível por terra, pois Éfeso estava ligada, por meio de estradas, com as cidades mais importantes da Ásia Menor. Era já por longo tempo o centro comercial da Ásia. O templo pagão da deusa Diana era ao mesmo tempo casa do tesouro, museu, bem como lugar de refúgio para criminosos. Fornecia empregos a muitos, incluindo os ourives que miniaturavam santuários de Diana. Foi nesta cidade que o apóstolo Paulo fundou a igreja de Éfeso. Ele passou três anos ali pregando as boas novas do Senhor Jesus. Éfeso era uma cidade idólatra. Lá as pessoas encontravam vários tipos de deuses também. O culto pagão era livre. O culto ao imperador era obrigatório. Quando muitos se converteram, muitos ourives perderam seus empregos. Porque os novos convertidos deixaram de cultuar aos ídolos e ao imperador. Bem como também queimaram seus livros de magia. Paulo fundou aqui a igreja que se tornou o centro para a evangelização do resto da província e aqui residia o apóstolo João. A igreja em Éfeso, consequentemente, deve ter-se tornado a principal do leste, com a possível exceção de Antioquia.
           O apóstolo João escreve para aquela igreja aquilo que o senhor lhe revelou sobre ela:



I – UMA IGREJA BATALHADORA, V. 1, 2.


           Quando Jesus diz “Eu sei”, “conheço” na ARA, declara uma verdade de importância dupla. A frase encabeça cada uma das sete cartas, ora proporcionando conforto (Ap 2.9; Ap 2.13, etc.), ora envergonhando (Ap 3.1-15). Aqui ela precede uma recomendação. E a recomendação vem daquele que tem os pastores em suas mãos. Que motivo de conforto e segurança para a igreja! De igual modo ele diz que anda no meio da igreja. Mais uma palavra confortadora, afinal ele sabe quem na igreja está frio espiritualmente, quem está se sentindo fraco, quem está passando por guerras interiores. Lembremos que é ele que sustenta a vida espiritual da igreja, que é representada aqui como candeeiro, igreja é para brilhar, para irradiar a luz de Cristo (v.1).
           Aquela era uma igreja proveniente da missão do apóstolo Paulo, e por ele instruída, portanto, tinha uma base doutrinária considerável. E era uma igreja que batalhava pela causa do evangelho no sentido de defendê-lo contra as heresias não aceitando os falsos mestres. Era uma igreja de labor (kopon), labor até a exaustão. E este labor era justamente a luta contra os heréticos.
          Jesus elogia aquela igreja por aquilo que há de positivo nela. O que nos faz pensar sobre o que ele veria ou está vendo de positivo em nós. Assim como a igreja de Éfeso, devemos ser igreja batalhadora, tanto na defesa da fé, quanto na obra que realizamos no Reino em quaisquer aspectos.


II – UMA IGREJA FIRME EM SUAS DOUTRINAS, V. 3, 6.

           Jesus aprova a fidelidade teológica daquela igreja. Por ser assim fiel, a igreja de Éfeso (e a nossa assim deve proceder também) pôde resistir aos nicolaítas, seguidores de Nicolau de Antioquia. Pouco sabemos sobre esta heresia do primeiro século cristão. O mais comum é lhes atribuir o ensino do libertinismo, a crença de, como corpo e alma, não se comunicam, aquilo que uma pessoa fizer no plano corporal (imoralidade, prostituição, etc.) não tem qualquer significado espiritual. Há hoje poucas pessoas que acreditam nisto, mas muitas que praticam isto. Este é o verdadeiro dúplice.
           É interessante que ele diz que eles não se cansaram, do grego kekopiakas, que denota cansaço moral. Significa então que por mais que sofressem pressão permaneceram fiéis moralmente, não traíram seu discurso, não mudaram sua pregação, foram perseverantes neste sentido. Uma das pressões que as igrejas, bem como seus líderes às vezes podem sofrer é falta de resultados imediatos. Pode vir o pensamento de que as coisas (o serviço para o Reino) poderiam estar sendo feitas de uma outra forma para se alcançar os resultados mais rapidamente e mais grandiosamente. O problema é que ao se aderir a este pensamento não estará longe de trair a verdade bíblica em sua pureza. Mas que nós, como igreja, e individualmente, que também somos tentados de igual modo, sejamos perseverantes naquilo que a Palavra nos ensina.


III – UMA IGREJA QUE PERDEU O VIGOR ESPIRITUAL, V. 4.

           Mas esta carta não é só elogio, agora vem aquilo que era negativo entre eles e que precisavam urgentemente corrigir. Eles abandonaram o seu primeiro amor. Não significa aqui que eles se desviaram da fé, não significa também que deixaram de crer nas doutrinas corretas. O significado é que embora trabalhassem para o Senhor, já não havia prazer espiritual no que faziam, já não havia paixão no que faziam. Refiro-me ‘paixão’ aqui não no sentido de relacionamento interpessoal, mas naquele sentido de impulso para a ação, de prazer na ação, de alegria por estar junto de quem se ama e fazer algo para quem se ama. Já não amavam ao Senhor com a intensidade que se deve amar, a consequência disso podemos imaginar é que também estariam com o amor para com o outro debilitado. A frieza espiritual estava presente nos corações, embora estivessem sendo muito ativos. Parece a teologia deísta aplicada a igreja. A teologia deísta diz que Deus criou o mundo, mas não se relaciona com ele, o abandonou às leis por Ele estabelecidas na natureza. No deísmo não pode haver relacionamento com Deus. Deus instituiu e deu corda à igreja, e ela agora busca fazer algo para Ele, busca até em algumas comunidades crer n’Ele e em suas obras conforme as Escrituras; mas no relacionamento está distante d’Ele, como se fosse possível trabalhar para Ele sem relacionar-se com Ele. Não podemos esquecer que a forma como trabalhamos na obra de Deus é mais importante do que o que estamos fazendo, pois o que conta é comunhão com Deus no ato do serviço.


IV – UMA IGREJA QUE RECEBE UMA NOVA OPORTUNIDADE, V. 5.


           A igreja então é chamada ao arrependimento. Metanonson – mudar de mente, pensar diferentemente, arrepender-se. É Jesus dizendo àquela igreja: “Tenham em mente os amorosos relacionamento que vocês desfrutaram uma vez, e façam uma clara ruptura na vossa maneira atual de viver”.
           O arrependimento acontece quando há consciência da necessidade de mudar. Demanda autoconhecimento, algo muito difícil. A igreja do Senhor necessita autoexaminar-se constantemente, assim como cada um de nós de forma individual.


Aplicação

           Façamos um inventário de nossas disposições e de nossas atitudes.
           Que não venhamos a nos desviar da doutrina ensinada nesta igreja. Mas que confiemos de que Jesus Cristo está cuidando dos oficiais desta igreja e que Ele está no nosso meio andando. Olhando como está a nossa vida com Deus.
           Merecemos os elogios que Éfeso recebeu?
           Merecemos a crítica que recebeu?       
       É Jesus quem nos julga, mas podemos fazer uma autoavaliação.
          Devemos nos arrepender dos nossos pecados. Eu sei: ninguém gosta de ser confrontado com seu erro. Porém, olhando a palavra de Deus, essa é a situação.
         O Senhor está no meio da sua igreja andando. Ele sabe o que cada um sofre. O que cada um está em falta. E se estamos em falta em nosso amor a Jesus Cristo, devemos o quanto antes nos arrepender. Senão o Senhor afiará a sua espada e pelejará contra os infiéis. Esta advertência a Igreja em Éfeso, também serve para nós aqui na Igreja Batista dos Guararapes.


Conclusão

           Conforme o versículo 7 Cristo vai recompensar aqueles que permanecer firme. Ele diz que ao vencedor darei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus. Esta árvore foi plantada no jardim do Éden. Após a queda do homem, Deus expulsou o homem do jardim para não comer daquela árvore, porque não permaneceu firme no seu estado original. Depois de expulsar o homem colocou querubins com espadas de fogo na entrada do jardim e assim impedindo o caminho para a árvore da vida. O paraíso ficou fechado para o homem depois da queda. Mas, em Cristo ele se abre para aquele vencedor que permanece firme no Senhor. O vencedor é aquele crente que luta contra o diabo e o pecado. E por seu amor a Jesus Cristo ele persevera até o fim. A esse vencedor é oferecido a comida que dar vida. O jardim do Éden agora é chamado em Apocalipse de a nova Jerusalém. A árvore está no meio da cidade. Como diz Apocalipse 22.2: “No meio da sua praça, de uma e outra margem do rio, está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas são para a cura dos povos” e também o verso 14: “Bem-aventurados aqueles que lavam as vestiduras no sangue do Cordeiro, para que lhe assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas”.
           É dessa árvore que será dado aos fiéis ao Senhor Jesus Cristo. Porque Jesus Cristo abriu as portas do paraíso para nós entrarmos e recebermos o fruto da árvore da vida. Quer dizer, receberemos a vida eterna. Estaremos para sempre com o Cordeiro de Deus. Por isso, ouça o que o Espírito tem a dizer. Persevere naquele que morreu por você. Que te concedeu arrependimento e fé.
           Em face às turbulências que passamos como igreja nunca podemos esquecer que há reservado para nós aquilo que nem mesmo Adão vivenciou, pois ele não ‘comeu’ da árvore da vida, e a nós nos é reservado este tesouro.



Apocalipse 1.1-8


 Introdução

O livro de Apocalipse possivelmente é o livro menos lido da Bíblia. É um livro diferente de todos os outros: cheio de simbolismo, imagens vívidas, repetições numéricas, fala do dragão, da serpente, do número 666 como número da Besta. Tudo isso enquanto é fascinante para alguns, para outros é assustador. É um livro de difícil interpretação, se isso ocorre entre os estudiosos, muito patente entre o povo em geral. Muitas pessoas tem uma visão meramente futurista de Apocalipse, desconsideram ou desconhecem que ele também fala acerca do presente. Interpretar esse livro somente como conteúdo de profecias futuras é algo alienante. Erroneamente alguns já usaram este livro para defender algumas posturas equivocadas; por exemplo: a ideia de que a ex-União Soviética juntamente com a China era um bloco comunista diabólico profetizado em Apocalipse (Gogue e Magogue - Ap 20,7-8), que combateriam os cristãos democráticos e capitalistas, os quais, entretanto, venceriam com a ajuda de Cristo (obviamente essa visão foi difundida por intérpretes norte-americanos). Esse é apenas um exemplo de muitos absurdos já apregoados por meio de uma interpretação errada do livro.
O livro de apocalipse enquanto é encantador para alguns, para muitos outros é considerado estranho, e por isso é evitado. Há duas razões básicas porque isso acontece:
a) a ideia de que ele é um livro selado, encoberto.
Pelo próprio título do livro essa ideia já deveria ser descartada. Apocalipse significa revelação. O Senhor diz a João: "Não seles as palavras da profecia deste livro, porque o tempo está próximo" (22:10). O que nele está escrito deve ser conhecido por todos. Traz revelações acerca do futuro próximo e do futuro distante.
b) a ideia de que fala de catástrofe, de caos.
Essa ideia prevalece hoje. Inclusive na cultura mundana o apocalipse é algo que deve ser evitado, que o ser humano deve lutar para evitar que aconteça. Há muitos filmes que retratam isso. Mas o livro de Apocalipse, embora mostre tragédias, sofrimento, é antes, a revelação da vitória final de Cristo e sua igreja. Jesus Cristo em sua glória é o tema do livro.
Por que devemos ler Apocalipse?
Primeiramente porque é Palavra de Deus, e como tal é útil para o ensino, para a correção, para instruir na justiça (2 Tm 3.16).
Em segundo lugar porque é bastante confortador, pois revela a vitória final de Cristo e de sua igreja.


I – O título, o autor e o assunto do livro, v. 1-3.

O próprio livro esclarece suas peculiaridades: ele é a revelação daquilo que em breve acontecerá; foi escrito por João, o mesmo que escreveu as epístolas e o evangelho; e revela Cristo em sua glória.
Em um tempo de perseguição e de grande sofrimento para a igreja João recebe essa revelação acerca do Cristo vitorioso, que voltará e porá em triunfo a Sua igreja.
Este é um livro repleto de símbolos, e há uma razão para isso. Nesse sentido é parecido com as parábolas, esclarece para uns e oculta para outros. A igreja compreendia o que era dito por meio dos símbolos, no entanto os ímpios nada entendiam. Assim: para falar acerca de um ditador falou de uma besta, em vez de falar acerca de todo o sistema sedutor e maligno do império romano falou da Meretriz, de Babilônia, a grande.


II – Os leitores de Apocalipse, v. 4-8.

Jesus envia sua mensagem por meio de Joãos às sete igrejas da Ásia. Poderia ser a seis igrejas ou a oito, contudo o livro é enviado a sete igrejas por um motivo específico. O número sete se repete com frequência no livro: há sete candeeiros, sete estrelas, sete selos, sete trombetas, sete taças, sete espíritos, sete cabeças, sete chifres, sete montanhas. Isso ocorre porque que o número sete significava algo completo. Então ao escrever às sete igrejas tem o sentido de estar escrevendo a toda a igreja, isso em todos as eras e em todos os lugares.
É um livro destinado a todos os verdadeiros cristãos. Nos exorta, nos encoraja. Somos abençoados ao ouvir a sua mensagem, ao guardá-la em nossos corações. Deve ser lido nos cultos ao Senhor.
Não devemos nos aproximar desse livro como meros curiosos. A reação de João diante da revelação divina foi semelhante à de Daniel (D 10.7-10; Ap 1.17). Ficaram esmagados diante da grandeza do Senhor. Desse modo, devemos nos aproximar do livro de Apocalipse com reverência.


III – O remetente do livro de Apocalipse, v. 4-5.

João os saúda com a graça e a paz. É uma saudação de encorajamento para uma igreja que está vivendo um martírio. Ele fala em nome do verdadeiro autor do livro, o Deus Triúno. Nesses versículos temos a revelação da Trindade. O Deus Pai, o Deus Filho e o Deus Espírito, que é um Deus Triúno, estão no total controle da situação vivenciada pela igreja, em meio à tribulação que ela enfrenta Ele envia Sua Graça e sua Paz.
Mas esses versículos também nos mostram como a igreja deve ver o noivo. O que aqui está exposto traz a revelação do tríplice ofício de Cristo:
a) Ele é Profeta – A Fiel Testemunha nunca deixou de anunciar o Pai em seu ministério terreno, mesmo na hora do sofrimento e da morte. Ele mesmo disse: “Eu vim para fazer a vontade do pai” (Jo 6.38);

b) Ele é Sacerdote – Ele nos representou em sua vitória contra a morte, é o primogênito na ressurreição e nós o seguiremos também ressuscitando no corpo. Uma igreja que passa por perseguição e martírio precisa ouvir que o seu senhor é aquele que venceu a morte;

c) Ele é Rei – O Soberano dos reis da terra. Ele é o rei dos reis e Senhor dos senhores. Ele está acima dos impérios, tem domínio absoluto sobre tudo.

Qual então deve ser a postura da igreja? João em sua descrição passa a adorar a Cristo. E essa deve ser a postura constante de toda a igreja, pelas razões por ele exposta:
a) Ele nos ama. O verbo no presente indica a permanência desse amor. Ele nos amou, nos ama e continuará nos amando perpetuamente.

b) Ele nos libertou dos nossos pecados. João fala do ato da redenção já concluído.

c) Nos constituiu reino e sacerdotes. Já reinamos com Cristo nas regiões celestiais, e reinaremos de modo mais excelente. Além da posição real ao lado de Cristo também nos concedeu ser sacerdotes. Os sacerdotes tinham uma mitra na qual tinha uma placa de ouro onde estava escrito “Santidade ao Senhor”. Como sacerdotes, então, devemos viver uma vida de santidade.


IV – O tema do livro de Apocalipse, v. 7-8.

Eis aqui o grande tema do livro: a vitória de Cristo em sua volta gloriosa. A vinda de Cristo será:
a) Uma vinda Pessoal
Não será um evento do qual ouviremos, mas veremos, vivenciaremos, contemplaremos. Assim como foi pessoal a sua partida será pessoal o seu retorno. Vários textos bíblicos corroboram (Jo 14.3; 1 Ts 4.16; At 1.11).

b) Uma vinda Pública e visível.
“[...todo o olho o verá...] (1.7).
“e verão o Filho do homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória” (Mt 24.30).

c) Uma vinda Poderosa e para juízo
Aquele que veio em estado de humilhação, viveu em estado de humilhação e morreu também em humilhação sendo vítima de um julgamento  falso, voltará gloriosamente para julgar todas nações (Mt 25.31-46). Sua vinda será em grande glória (Mt 24.30; Mc 13.26; Lc 21.27).
No v. 8 o Senhor mesmo fala de seus atributos de onipotência e eternidade, isso para mostrar que ele é poderoso para executar o seu plano na história humana.


Conclusão

Ao contemplar essa revelação de Cristo devemos estar nos perguntando:
·        Temos hoje como igreja e como cristãos individualmente constantemente diante de nossos olhos a visão desse Cristo glorificado?
·        Temos nos percebido em viver uma vida de preparação para o seu retorno?
·        Estamos sendo como aquelas jovens prudentes, nossas lâmpadas estão cheias de azeite? Ou temos sido relaxados?
Impendentemente do que estejamos passando tenhamos em mente que a mensagem de Apocalipse é para nós; e nos fortalece, nos anima e nos exorta.


Êxodo 20.17 - O Décimo Mandamento: uma proteção contra a ambição errada


Introdução

           Os mandamentos revelam a vontade de Deus para um relacionamento saudável com o Senhor e com o próximo. São válidos para nossas vidas como princípios éticos fundamentais explicados e expandidos por Jesus no Novo Testamento. Uma forma correta de interpretar um mandamento bíblico é verificar seu lado proibitivo e o modo positivo como ele pode ser concretizado em nossas vidas.
           O décimo mandamento é uma proteção em nossas vidas contra a cobiça desmedida, portanto contra a inveja.
           A palavra inveja é muitas vezes confundida em seu significado com ciúme. E realmente tem um sentido prático muito próximo. Segundo o dicionário Aurélio inveja é: 1 Desgosto pelo bem alheio. 2 Desejo de possuir o que outro tem (acompanhado de ódio pelo possuidor). Ciúme então segundo o Aurélio é: 1 Receio ou despeito de certos afetos alheios não serem exclusivamente para nós. 2 Inveja. 3 Receio. Ou seja, o dicionário Aurélio apresenta-os como sinônimos, com pequenas diferenças.
           Então poderíamos dizer que o ciúme é cobiça pela riqueza e a honra do outro, a inveja é algo que se faz acompanhar de rancor.  A inveja não é necessariamente querer para nós mesmos, mas simplesmente querer que seja tirado do outro.
           Os termos bíblicos que encontramos para esse sentimento são:
           Chamad – Palavra hebraica que é traduzida por cobiça. Tem o sentido de “possuir no coração uma intenção oculta que mais tarde se manifesta em ações concretas de furto e roubo” (Reifler, 2009).
           Pleonexia – Palavra grega que traz o sentido de “desejo incontrolável de possuir o mundo e seus bens materiais, poder, influência e prestigio” (Reifler, 2009).
           Philarguria“Amor desordenado pelo mundo” (Reifler, 2009).
           Epithumia – Também do Novo Testamento, é traduzida por “cobiça, intenção impura, ambição, desejo intenso, desejo ardente, aspiração” (Reifler, 2009).


I – Textos bíblicos proibitivos do A. T.

           No Antigo Testamento há muitos textos que apresentam a versão inibidora e crítica do décimo mandamento. Mencionaremos apenas alguns.
           Observemos que desde o Gênesis este sentimento maligno tenta o ser humano, Gênesis 3.6 descreve suas características principais: influencia o paladar, é agradável á vista e afeta a mente: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu”.
           Números 11.4 descreve a cobiça do povo de Israel em voltar a comer as comidas egípcias, quando murmuraram contra o Senhor porque desejam comer carne: “E o populacho que estava no meio deles veio a ter grande desejo das COMIDAS dos egípcios; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar e também disseram: Quem nos dará carne a comer?” Vemos no contexto que mesmo tendo sido abençoados pelo Senhor com a providência do maná, mostravam-se insatisfeitos. O cobiçoso normalmente será ingrato, não reconhecerá o que o Senhor já fez por ele.
           2 Samuel capítulo 11 nos mostra Davi cobiçando Bate-Seba e o resultado disso foi a quebra também do sétimo e do sexto mandamentos. Ele adulterou e depois assassinou. Esse texto deve nos fazer refletir que a cobiça pode começar de modo muito sutil, mas pode vir a dominar o coração e levar a consequências desastrosas.
           Um texto bastante lembrado é o da cobiça de Acabe pela vinha de Nabote em 1 Rs 21.1-7:
1Sucedeu, depois disto, o seguinte: Nabote, o jezreelita, possuía uma vinha ao lado do palácio que Acabe, rei de Samaria, tinha em Jezreel.
2Disse Acabe a Nabote: Dá-me a tua vinha, para que me sirva de horta, pois está perto, ao lado da minha casa. Dar-te-ei por ela outra, melhor; ou, se for do teu agrado, dar-te-ei em dinheiro o que ela vale.
3 Porém Nabote disse a Acabe: Guarde-me o SENHOR de que eu dê a herança de meus pais.
4 Então, Acabe veio desgostoso e indignado para sua casa, por causa da palavra que Nabote, o jezreelita, lhe falara, quando disse: Não te darei a herança de meus pais. E deitou-se na sua cama, voltou o rosto e não comeu pão.
5 Porém, vindo Jezabel, sua mulher, ter com ele, lhe disse: Que é isso que tens assim desgostoso o teu espírito e não comes pão?
6 Ele lhe respondeu: Porque falei a Nabote, o jezreelita, e lhe disse: Dá-me a tua vinha por dinheiro; ou, se te apraz, dar-te-ei outra em seu lugar. Porém ele disse: Não te darei a minha vinha.
7 Então, Jezabel, sua mulher, lhe disse: Governas tu, com efeito, sobre Israel? Levanta-te, come, e alegre-se o teu coração; eu te darei a vinha de Nabote, o jezreelita”.
           Nos vv. 8-16 vemos o trágico desfecho dessa história, como Jesabel consegue de modo maligno que se levante falsa acusação contra Nabote e consequentemente a sua condenação à morte. A cobiça desenfreada leva invariavelmente as pessoas a quebrarem outros mandamentos.
           Em Provérbios encontramos: “Tal é a sorte de todo ganancioso; e este espírito de ganância tira a vida de quem o possui” (Pv 1.19). Acerca da mulher adúltera diz Salomão: “Não cobices no teu coração a sua formosura, nem te deixes prender com as suas olhadelas” (Pv 6.25). “Não tenhas inveja dos homens malignos, nem queiras estar com eles” (Pv 24.1). E todos sabemos que momentaneamente Asafe viveu uma luta interior por não conseguir viver esse princípio ético, como mostrado no salmo 73.


II – Textos proibitivos do Novo Testamento.

           Dentre tantos textos no Novo Testamento que trazem uma versão inibidora e crítica desse mandamento queremos fazer ênfase a alguns. No Novo Testamento a principal palavra para cobiça é Pleonexia “desejo incontrolável de possuir o mundo e seus bens materiais, poder, influência e prestigio”; e Jesus adverte em vários momentos sobre este perigo: Mt 5.28 “Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela”. Mt 16.26: “Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” Mc 7.20-22: “E dizia: O que sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura”. Lc 12.15: “Então, lhes recomendou: Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui”.
           Em 1 Timóteo 6.10 o apóstolo Paulo se refere à cobiça (philarguria), amor desordenado pelo mundo, se referindo do amor ao dinheiro como sendo a raiz de muitos males, pelo qual muitos se desviaram da fé.
           Há muitos outros textos que podem ser observados: Rm 7.7; Tg 1.14, 15; 4.2, etc.


III – Como o décimo mandamento deve ser compreendido por nós hoje.

           Trata-se aqui da versão positiva do mandamento, ou seja, sua abrangência em não apenas deixar de fazer algo, mas a implicação de ser e fazer.

a) Abençoar ao invés de cobiçar
           2 Co 9.5 “Portanto, julguei conveniente recomendar aos irmãos que me precedessem entre vós e preparassem de antemão a vossa dádiva já anunciada, para que esteja pronta como expressão de generosidade e não de avareza”. Esta recomendação bíblica faz-nos refletir que devemos ser uma bênção para o nosso próximo.

b) Estar satisfeito com o que Deus providencia.
           O melhor exemplo disso no N. T. é o apóstolo Paulo: “Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes” (1 Tm 6.8). Paulo não está ensinando o relaxamento, muito pelo contrário, ele é grande incentivador do trabalho; por razões pessoais inclusive conciliou seu ministério com sua profissão de fazedor de tendas. Ele fala de satisfação e gratidão pelo o que o Senhor nos concede, ele sentia-se desse modo, grato ao Senhor. Ele aprendeu a ser grato tanto na abundância quanto na ausência: “Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4:12-13 NVI).

d) Dedicar-se ao trabalho honesto.
           Atos 20.33-35: “De ninguém cobicei prata, nem ouro, nem vestes; vós mesmos sabeis que estas mãos serviram para o que me era necessário a mim e aos que estavam comigo. Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber”. Paulo apresenta nesses versículos princípios construtivos do décimo mandamento: trabalho honesto e assistência liberal a quem precisa.

e) Ter boa vontade.
            1 Pedro 5.2: “pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade”. Um princípio que muitos líderes cobiçosos de nossos dias poderiam atentar. Se uma pessoa tem boa vontade, ou seja, quer o bem para o outro, não estará cobiçando o que tem, não estará tendo inveja dessa pessoa, não fará algo que venha a prejudicar essa pessoa.


Conclusão

           Como conclusão gostaria de dar algumas sugestões práticas:


1. Vigie seu coração, caso note brotando a inveja, corte-a na nascente, não der espaço a ela no coração.

2. Busque a aprovação de Deus para o que você almeja e se satisfaça com o que Ele te concede!

3. Não queira algo que outros tem somente para não ficar por baixo, evite a ambição desmedida.

4. Lute para conquistar o que você sonha, mas sem se permitir a inveja para com aqueles que tem o que você não tem.

5. “[...] promover ativamente o bem-estar do próximo em atos de amor fraternal, diaconia, misericórdia e retidão é o caminho traçado por Deus para cumprirmos corretamente o décimo mandamento” (Reifler, 2009).