Filipenses 1.27-30 - Vivam de modo digno do evangelho

Introdução

Nós cristãos vivemos uma tensão no que diz respeito ao fato de temos duas cidadanias. Somos brasileiros, vivenciamos as coisas referentes ao nosso contexto secular; mas ao mesmo tempo somos cidadãos dos céus, temos uma pátria celestial, e neste mundo consequentemente somos embaixadores desse reino espiritual. Vivemos também a tensão entre o nosso encontro futuro com Cristo, quando então nossa cidadania espiritual se efetuará e prevalecerá sobre a atual, e a nossa cidadania do presente. A igreja então está entre aquilo que é e aquilo que virá a ser.
Assim, não podemos jamais esquecer quem somos e que neste mundo somos peregrinos: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde aguardamos o salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20).
Enquanto nos encontramos aqui como encontrar o equilíbrio entre essas duas cidadanias? Como lidar com esses conflitos?


Elucidação

Paulo, ao escrever essa epístola estava preso em Roma, tencionava expressar gratidão pela ajuda enviada por aquela igreja através de Epafrodito (Fp 2.25; 4.18). Aproveita a ocasião para incentivá-los à unidade cristã, à uma vida coerente com o evangelho de Cristo. Faz isto utilizando os aspectos sociais e culturais daquela cidade. Filipos era uma colônia romana, seus cidadãos eram romanos, falavam latim, vestiam vestimentas romanas, lembravam e se orgulhavam do fato de mesmo estarem localizados em território grego eram totalmente romanos. Eles tinham um grande orgulho de sua cidadania.
Desse modo, o nosso texto incentiva a igreja a viver de modo digno da cidadania celestial.



I – Vivam a missão cristã, v.27.

A expressão utilizada pelo apóstolo Paulo que foi traduzida por “vivei” tem na íntegra o sentido aqui de “se portem como cidadãos”. Ele já havia falado muitas coisas nesse capítulo, mas chama a atenção aqui para algo sobremodo importante – “acima de tudo”.
O incentivo de Paulo parte não de uma teoria, mas do fato de que ele mesmo vivia de modo digno do evangelho. A causa do evangelho foi sempre central para Paulo:
No passado, v. 12;
Ele não se importava em ter passado privações, perseguições, desde que tudo tenha contribuído para o progresso do evangelho.
No presente, v. 14-18.
Paulo não se preocupava com os invejosos, com aqueles que queriam o seu “posto” na igreja, desde que pregassem Cristo e não heresias. O importante para ele era cristo ser anunciado.
No futuro, v. 20, 21.
O presente era Cristo, sua vida era Cristo e fazê-lo conhecido. O futuro seria encontro com Cristo, então morrer seria lucro.
Paulo entende toda a sua história, passado, presente e futuro à luz da mensagem de Cristo.
Que assim como Paulo, cada um de nós cumpramos a nossa missão! Que vivamos de modo digno do evangelho. Entenda a centralidade de Cristo em toda a nossa história de vida.


II – Utilizem a estratégia cristã, v.27, 28.

A estratégia correta a ser utilizada então é viver em unidade. Lembremos quão enfaticamente Jesus enfatizou a importância desse elemento espiritual:
“Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.34–35). “[..] e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos” (Jo 17.21–22).
O apóstolo Paulo sabia muito bem que uma igreja só pode ser vitoriosa batalhando em unidade. O desejo dele é que mesmo em sua ausência pudesse estar ouvindo falar da maturidade daquela igreja, ouvisse que eles estavam se prontificando para batalhar pela causa de Cristo. O “estais firmes” na verdade aqui é uma linguagem militar, que traz o sentido de ‘prontos para o combate’. Deveria estar “em um só espírito”. Espírito aqui pode ser o Espírito Santo ou uma atitude presente conjuntamente em cada cristão. Os intérpretes se dividem a respeito. Deveriam então estar lutando juntos, e isso é mais do que uma associação para uma causa comum, trata-se de uma unidade que excede àquela encontrada em contextos seculares. Juntos, por ser uma única família, por ter uma ligação espiritual realizada pelo próprio Cristo em sua obra e operacionalizada pelo Espírito Santo deve a igreja “lutar pela fé evangélica”. Trata-se aqui de fé no sentido de conteúdo daquilo que cremos, ou seja, das doutrinas. Paulo está incentivando a uma luta evangelística e apologética. Ele quer unidade para a igreja, mas ele sabe que não existe verdadeira unidade destituída da verdade da Palavra.
Que lutemos juntos não por modismos ou doutrinas de homens, mas pela verdade de Deus, e assim vivenciaremos verdadeira unidade (Ef 4.1-6).
Que nesta luta não nos sintamos intimidados. Esta expressão (pturemenoi = intimidados) era utilizada para se referir a um cavalo assustado no campo de batalha. Paulo é bastante realista, sabe que como cristãos estamos todos em guerra, mas nos incentiva a prosseguirmos avante.
Os verdadeiros crentes não terão esperança de serem amigos do mundo, pois sua própria presença já é uma censura ao que o mundo abraça. Podemos correr o risco de sermos vistos como presunçosos por afirmarmos que estamos em Cristo e somente por meio de Cristo há salvação. Muitos consideram-nos intolerantes e homofóbicos por falarmos contra o adultério e contra o homossexualismo. Então diante disso tudo ou as pessoas serão impactadas pelo evangelho ou se oporão aos cristãos. Mas Jesus já nos advertiu a não esperarmos simpatia do mundo: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim” (Jo 15.18). Daí Paulo diz para não nos intimidarmos.
Essa situação é prova evidente de perdição para eles, pois serão julgados pelo Senhor (2 Ts 1.7-9). Para nós é prova de salvação no sentido de que é uma prova de que pertencemos ao Senhor. O Senhor Jesus já havia proferido: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós” (Mt 5.10–12).
Não desanime diante de perseguições, se alegre em Cristo, ainda que delas advenham sofrimentos.


III – Viva o estímulo cristão, v. 29.

O estímulo cristão para prosseguir vitoriosamente em Cristo está em algo estranho a quem não tem o Espírito Santo. Por estranho que à primeira vista possa parecer, o nosso estímulo é a graça de padecermos por Cristo.
Paulo tem toda propriedade para incentivar isso aos irmãos. Ele mesmo quando visitara Filipos para pregar o evangelho e então iniciar a igreja naquela cidade teve a oportunidade de expulsar um espírito maligno de uma jovem. Tal evento deixou as pessoas que exploravam aquela situação enraivecidas e conseguiram prendê-lo sob a acusação de perturbação da ordem social. Diz o texto bíblico de Atos 16 que mesmo na prisão, mesmo tendo sido açoitados injustamente Paulo e Silas louvavam à Deus alegremente (v.25) Tão impactante foi esse momento que redundou na conversão do carcereiro e sua família.
Isso não significa     que o cristão deve precipitar-se inconsequentemente a uma situação de sofrimento, mas que caso venha a estar presente pelas razões de vivermos o evangelho devemos entender como privilégio manifesto pela graça do Senhor. Se sofrermos, não por consequência de nossos pecados, mas por andarmos em fidelidade à nossa cidadania celestial neste mundo hostil, isto redundará em glória para nós: “Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados (Rm 8.17);  (1Pe 4.12-16).
Diante de tudo isso, há alguns desafios para nós como embaixadores de Cristo em nossa cidadania presente.


Aplicação

Desafios do cristão:
1. Viver o equilíbrio de estar na expectativa da consumação da pátria espiritual sem desconectar da realidade social. O cristão pode se envolver politicamente em sua conjuntura social. Pode sentir orgulho de sua pátria, desde que não a idolatre.

2. Entender que a unidade do corpo de Cristo deve exceder àquilo que vemos como unidade no contexto de não-igreja.

3. Saber se estamos em nossa caminhada sendo aprovados ou reprovados pelo Senhor.

4. Não fugir ao compromisso do evangelho de Cristo para simplesmente não vivermos algum prejuízo.


Conclusão

No v. 30 Paulo lembra que sofreu quando chegou em Filipos, colocando-se como exemplo ao mesmo tempo que mostra que o combate que viram nele é compartilhado pelos filipenses. Mas não apenas por eles, por todos os cristãos. Assim, viva esse combate, essa tensão entre o temporal e o eterno, entre a pátria celestial e a terrena de tal forma que as pessoas reconheciam você como cidadão do Reino de Deus.


Apocalipse 2.18-29 - Uma igreja tolerante com o pecado



Introdução

A maior das cartas é dirigida a menor das igrejas. E a cidade de Tiatira não era uma cidade tão importante quanto as demais, não era um centro político nem religioso, tinha apenas um pouco de destaque no comércio.
Havia grêmios (grupos de comerciantes de lã, de couro, de linho, de bronze, de tintureiros, de alfaiates, de vendedores de púrpura, etc) que se reuniam com frequência. Era importante para os comerciantes fazer parte desses grêmios, ajudava nos negócios, na verdade, era essencial. Nessas reuniões havia sacrifícios aos ídolos e normalmente terminavam em orgias.
Essa carta nos mostra os perigos em ser cristão em um ambiente hostil e que não é possível servir a dois senhores (Mt.6:24; Tg.4:4). Infelizmente a igreja de Tiatira estava fazendo justamente isso, por ser demasiada tolerante com o pecado, tentavam agradar à sociedade e assim se contaminavam. Era como se estivessem tentando servir a dois senhores.



I - UMA IGREJA DINÃMICA, V.18-19.

V. 18 Mais uma vez a carta inicia com a apresentação de seu autor. Quem lhes escreve é o Filho de Deus. Essa ênfase no óbvio se faz necessária porque a carta é enviada a uma igreja que se encontra inserida em uma sociedade onde César e Apolo são tidos como divindades.
Ele apresenta-se como aquele que sonda e conhece todas as coisas, tem os “olhos como chama de fogo” (1:14), nada lhe é oculto. Além disso, diz que tem “pés semelhantes ao bronze polido” (1:15), ou seja, indica com isso que sua presença será percebida, pois ele julga a todos.
Depois de apresentar-se o Senhor falar-lhes o que está lhe agradando naquela igreja
v.19 – Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras. Aqui o Senhor revela que aquela era uma igreja dinâmica. Trabalhava bastante. Seria hoje uma igreja com agenda bem cheia. Também o amor era notório, e isso era algo muito positivo. Confiava no Senhor, a fé era genuína. Era perseverante em meio às provações. Tudo isso estava bem, contudo, ainda não era o suficiente. Em meio a todas essas coisas positivas havia algo que estava maculando sua santidade.


II – UMA IGREJA TOLERANTE AO PECADO, V. 20.


Percebam que antes de o Senhor repreender a Jezabel repreende a igreja por ser tolerante com aquela mulher. Quando os falsos ensinos estão no contexto da igreja aqueles que ouvem a aceitam são tão culpados quando os que ensinam heresias.
Jezabel faz lembrar aquela do A. T. de mesmo nome. A Jezabel do A. T. ensinou a idolatria ao povo, introduziu o culto pagão a Baal, perseguiu os profetas do SENHOR matando-os.
A Jezabel de Tiatira ensinava e induzia o povo ao erro. Pregava uma liberdade enganosa quanto ao pecado, uma tolerância não bíblica. Ensinava uma liberdade que era uma escravidão. Possivelmente dizia aos crentes comerciantes que não havia problemas de eles participarem daqueles grupos de comerciantes que sacrificavam aos ídolos e viviam na libertinagem sexual, afinal ela entendia que isso era necessário para poder se manter naquela sociedade. Transigir com o pecado nunca é a saída diante de uma situação de dificuldade.

Havia então nos ensinos daquela mulher uma falsa doutrina e uma falsa moralidade.

a) A falsa doutrina. Além de defender que não poderiam cometer um suicídio comercial deixando de participar daquelas festas, também dizia ela que era necessário conhecer as coisas profundas de Satanás (v. 24). Com isto ela queria dizer que só é possível de fato vencer o pecado se de algum modo mais profundo você conhecê-lo, ou seja, é necessário passar pela experiência da fornicação para saber o que de fato é isso e então poder vencer. Segundo Jezabel era necessário adulterar para poder vencer o adultério. Mas a Palavra de Deus nos diz totalmente o contrário, ora se nós já morremos para o pecado, como pois iremos admitir que vivamos sua prática? Como diz Paulo "na malícia... sede crianças (1 Co 14:20);  "devemos ser símplices para o mal" (Rm 16:19), ou seja, esse tipo de conhecimento prático não podemos jamais admitir.

b) A falsa moralidade. Jezabel está a ensinar uma moralidade liberal, ou seja, sem regras, sem legalismos, sem proibições.


III – UMA IGREJA COFRONTADA POR JESUS, V. 21.

Veja o Senhor em sua longanimidade. Ela teve tempo para que se arrependesse de seu pecado. O prazer do Senhor está não no exercício do juízo, mas em acolher quem se arrepende a vai aos seus braços.
Cada dia que o senhor não nos trata consoante os nossos pecados é tempo de graça para nós, que possamos aproveitar longanimidade e cair aos seus pés em arrependimento.


IV – UMA IGREJA QUE VERIA O JUÍZO DO SENHOR, V. 22-23.

Os atos de justiça do Senhor Jesus foi profetizado àqueles que comungavam com o pecado de Jezabel e que assim como ela não se arrependeram. Com sua atitude eles estavam a zombar da paciência de Cristo, mas o Senhor não se deixa escarnecer.  Eles receberiam o salário devido pelo seu pecado. O pecado inicialmente pode parecer atraente, mas o resultado é destruição. É como a oferta de estelionatário, que enaltece as supostas vantagens buscando seduzir sua vítima, mas no final a pessoa ver a realidade de sua condição.

VII – UMA IGREJA ENCORAJADA A PERMANECER FIEL ATÉ O FIM, V. 24-25.

Embora alguns tenham sido seduzidos pela influência de Jezabel, havia aqueles que permaneceram vivendo em santidade. É possível mesmo em meio a grande corrupção permanecer fiel. O Senhor diz que não colocaria outra carga sobre eles, apenas deveriam permanecer fiéis. Que eles continuassem levando o julgo de Cristo aguardando o Senhor.
O grande propósito do diabo é arruinar a igreja, afastá-la da fidelidade ao Senhor. Ele poderá usar de muitas estratégias para isso; naquele contexto a perseguição era uma dessas estratégias, a heresia também, assim como a influência do pecado.
Aqui no Brasil não somos uma igreja perseguida, mas somos uma igreja que está sangrando por conta das heresias e porque está permitindo que coisas mundanas lhe influencie. Que apesar desse contexto negativo possamos permanecer fiéis!


VIII – UMA IGREJA COM PROMESSA DE RECOMPENSA, V. 26-28.

O vencedor é todo aquele que guarda as obras de Jesus, são os verdadeiros salvos. Aqueles que desistem o fazem na verdade porque nunca foram salvos, são como Judas, vivem um grande privilégio de estar entre os salvos, presenciar o agir de Deus no meio de sua igreja, mas não possui a vida em si, pois nunca foram regenerados.
Essa “autoridade sobre as nações” faz lembrar que Jesus recebeu depois de sua obra expiatória toda a autoridade (Mt 28.18), e ao nos ordenar anunciar o evangelho ele está nos enviando a conquistar as nações pela pregação da Boas Novas, que é salvação para os eleitos, mas perdição para os ímpios (Sl.2:8,9). Também aqui está imbuído do sentido que quando o Senhor voltar, aqueles que foram desprezados por amor a Cristo, com ele estarão em glória.
A “estrela da manhã” é o próprio Cristo. Ele é a nossa herança, o nosso deleite, o nosso prazer para sempre, muito mais excelente do que qualquer banquete deste mundo.


Conclusão

V. 29. Essa carta não foi apenas para Tiatira, mas para nós também. Que jamais sejamos como igreja e individualmente transigentes com o pecado!


Apocalipse 2.12-17 - UMA IGREJA SOB PROVAÇÕES

12 Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes:
13 Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita.
14 Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição.
15 Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas.
16 Portanto, arrepende-te; e, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca.
17 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe.


Introdução

           O texto que examinaremos é uma das sete cartas que João escreveu às igrejas da Ásia, esta endereçada à igreja que se encontrava em Pérgamo. Aquela cidade era bastante rica e também forte centro religioso. Havia nela a adoração a Zeus, Esculápio e Atenas. Também lá era o início do recente culto ao imperador. É bom lembrar que a recusa de quem quer que fosse de adorar ao imperador romano como deus tornava a pessoa forte candidato à desconfiança de infidelidade ao Estado. A igreja de Pérgamo, portanto, convive com esse contexto.


I – UMA IGREJA EM CONDIÇÕES ADVERSAS, 12-15.

           A igreja de Pérgamo vivia em um contexto de uma cidade que era um centro de idolatria, inclusive a expressão: “onde está o trono de Satanás”, refere-se justamente à referida adoração ao imperador romano. Havia então uma pressão cultural para que a igreja pudesse se conformar a esta condição idólatra, o que certamente fornecia momentos de provação para muitos cristãos. Havia no contexto daquela igreja dois grupos específicos, que tinham por sua vez atitudes semelhantes: coadunavam com a cultura corrompida e idólatra de Pérgamo, eram os baalamitas e os nicolaítas.
           Para entender o balaamismo, temos que voltar ao Antigo Testamento (Números 22 a 31).
           Balaão foi alguém que alugou os seus serviços proféticos ao rei Balaque, inimigo de Israel. Num primeiro momento, Balaão, repreendido por Deus por intermédio de anjo (naquele episódio em que o Senhor dar voz a uma jumenta), foi fiel a Deus e abençoou o seu povo (Nm 22.21-41). Mais tarde, no entanto, ele instruiu Balaque a como levar o povo de Israel à prostituição e à idolatria (Números 31.16). O conselho de Balaão era basicamente tentar seus homens hebreus para que se casassem com mulheres pagãs, levando assim o povo à idolatria de suas mulheres. E o povo o seguiu.
           Quanto ao nicolaitismo, ele aparece aqui como um termo genérico para o libertinismo, que propõe que o corpo e a alma não se comunicam; logo, segundo esta equivocada visão, o cristão está livre para fazer o que quiser com o seu corpo, sem que isto interfira em seu relacionamento com Deus.
           Eles aderiam a esta equivocada ideia, pois tornava fácil o relacionamento deles para com aqueles que sacrificavam aos ídolos; eles podiam recordar que o apóstolo Paulo em seus escritos permitia que comprassem no mercado carne sacrificada aos ídolos, contanto que suas consciências não os acusassem e isso não fosse escândalo para a igreja (os mais fracos na fé, conforme 1 Co 10.23-33). O problema aqui é que eles queriam participar das festas pagãs entendendo que aquilo que pudessem praticar com o corpo não interferia em seu relacionamento com Deus.
           Nesta carta de Apocalipse, os pergameses cristãos são advertidos a triunfarem sobre estes dois perigos. Em meio a tudo isto se destacou um mártir, Antipas. Um apologeta, um defensor da verdade, que como é de costume termina sofrendo por defendê-la. Mas como é glorioso para um cristão sofrer pela verdade de cristo e partir deste mundo como um mártir do Senhor.
           A igreja, portanto, encontrava-se dividida, em sua maioria não negava o nome de Cristo, não se apartavam da fé. Mas a minoria que vacilava diante do baalismo e do nicolaismo era um grande perigo, como está escrito em Gl 5.9: “Um pouco de fermento leveda toda a massa”, ou seja, um ensinamento errado, se permitido e não combatido pode trazer danos a toda a igreja.
           Mas além de enfrentar esses perigos recebe da parte do Senhor uma palavra de que deveria tomar uma atitude urgente: arrependimento.


II – ERA UMA IGREJA CHAMADA AO ARREPENDIMENTO, 16.

           Esta igreja é chamada ao arrependimento, a advertência não é feita apenas para os pregadores baalamitas e nicolaítas. Certamente caso eles não se arrependessem de desviar o povo da verdade de Deus sofreriam o peso da ira divina. Mas é perceptível também no texto que a igreja de modo geral pecava, pois embora muitos não se dobrassem às práticas idólatras, ainda assim eram demasiadamente tolerantes, negligenciavam na aplicação da DISCIPLINA eclesiástica. A igreja torna-se culpada diante do Senhor, peca por negligência, quando ver as falsas doutrinas surgirem no seu meio sem tomar uma atitude séria. A igreja deve lutar pela sua pureza doutrinária, porque a pureza doutrinária influenciará a pureza moral, isto é, aquilo em que se crê influenciará a prática da vida, as ações. A igreja de Pérgamo estava permitindo agir de conformidade com as práticas mundanas, influenciada por uma cultura corrompida, depravada, demoníaca. Sendo simpatizante com aquilo que era ofensivo ao Senhor.
           É interessante no versículo 16 a forma como o senhor afirma que pelejará contra os idólatras: “contra eles pelejarei com a espada da minha boca”. Mais uma vez se refere à Sua Palavra, à verdade divina.  Não importava o que aquelas pessoas criam, a verdade deles não subsistiria diante da verdade divina, a verdade deles se mostraria uma mentira, uma falácia: “... Seja Deus verdadeiro, e mentiroso, todo homem, segundo está escrito: Para seres justificado nas tuas palavras e venhas a vencer quando fores julgado” (Rm 3.4). No v. 16 há a declaração que a mentira deles seria exposta, que eles seriam envergonhados.
           Mas Jesus não apenas repreende como também faz promessas àqueles que seriam vencedores nesta batalha pela fé.


III – UMA IGREJA COM PROMESSAS GLORIOSAS, 17.

           Os cristãos não precisavam comer nas festas pagãs, porque tinham como alimento o maná oferecido por Deus. Como lemos na Torah (Êxodo 16.33 e outros), durante 40 anos Deus alimentou o seu povo, até chegarem a Canaã, com este cereal do céu: “Fez chover maná sobre eles para alimentá-los, e lhes deu cereal do céu” (Salmo 78.24). Moisés mostrou que, com esta provisão, o Senhor mostrou que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor viverá o homem: “Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dá a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo que procede da boca do SENHOR viverá o homem” (Deuteronômio 8.3). Ou seja, é o ensinamento de que eles estavam com falta de fé em estarem demasiadamente preocupados com o alimento físico quando serviam ao Deus que provê todas as necessidades.
           O maná se tornou um memorial da providência divina para o seu povo. Desse modo Deus lhes ordenou que guardassem na arca da aliança juntamente com a vara de Arão que havia milagrosamente criado flores e as tábuas da Lei uma porção do maná. A arca perdeu-se com o tempo e juntamente com ela o maná, por isso a expressão “maná escondido”.
           No entanto, o maná aponta para um alimento mais excelente: Cristo, o pão vivo que desceu do céu. Jesus diz de modo muito claro: “Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que todo o dele comer não pereça. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne” (Jo 6.48-51).
           E é na Palavra que nós encontramos Cristo, é nela que nos alimentamos d’Ele.
           A outra promessa para os vencedores é que receberão uma pedra branca, com um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe.
           Segundo nos informam os historiadores, a estrutura social do mundo antigo era constituída, simplificando, de duas grandes classes sociais: os cidadãos (patrões ou patronos) e os clientes. A cada dia, os pobres recebiam dos seus protetores alimento e dinheiro para as suas necessidades básicas. Eles também podiam receber presentes especiais. Para identificá-los, recebiam uma espécie de barra, feita de madeira, metal ou pedra, chamada tessera. Esta tessera era a senha que lhes dava acesso a muitos benefícios.
           Era comum também no mundo antigo o uso de pedras brancas para servirem como bilhetes de entrada aos festivais públicos. Sem estas pedras brancas, não se tinha acesso às grandes festas promovidas pelos governantes das cidades.
          Os irmãos de Pérgamo ouviram que tinham ao seu dispor uma pedra branca, uma senha de acesso direto a Deus, por meio de Jesus Cristo, através de Quem podem usufruir todas as bênçãos do depósito inesgotável do Trono do Pai. Essa senha está em nosso poder. Os cristãos não precisamos mendigar diariamente à porta de patrão algum. Nós já participamos da festa do Cordeiro, que não vai terminar jamais.
           Esta pedra branca tem uma inscrição, um nome novo, que será conhecido apenas por quem o recebe. A maioria dos comentadores entende que este nome é o nome de Jesus. Na festa do Cordeiro, Sua revelação terminará e nós O conheceremos de modo perfeito, não mais por enigma.
           Portanto, a promessa que também é um incentivo para os vencedores de estarem diante do senhor para todo o sempre.


Aplicação

1. Assim como a igreja de Pérgamo, a igreja atual no contexto brasileiro também passa pela provação de ter a sua pureza doutrinária testada. Infelizmente a igreja brasileira também se deixa levar por idolatrias. Penso que se o Senhor se estivesse escrevendo uma carta à igreja atual provavelmente diria: tenho, porém, contra ti que toleras os que sustentam a doutrina da teologia da prosperidade, da idolatria a Israel, da salvação pelas obras, de uma incompreensão da graça divina (como se ela pudesse ser comprada por algo que fazemos), e tantas outras falsas doutrinas que o Senhor poderia mencionar.

2. Que você meu irmão possa ter uma postura de Antipas, defender a verdade divina, mesmo quem venha a sofrer por isso.

3. A igreja deve ser misericordiosa, compassiva, mas não tolerante com o pecado, ela não pode negligenciar da disciplina. Lembremos de como o apóstolo Paulo repreendeu severamente os coríntios por permitirem o pecado no seu meio sem tomarem uma atitude de disciplina para com o ofensor – 1 Co 5 – o caso do homem que estava tendo relações sexuais com  a madrasta.

4. Não se deixe levar meu irmão, minha irmã, pelas influências dos “baalamitas e nicolaitas”. Não permita que haja contaminação de uma influência mundana em sua vida. E caso haja, que você possa se arrepender e voltar-se para o Senhor.

5. Passamos provações em nossa caminhada, mas temos promessas maravilhosas: teremos Cristo eternamente, teremos um relacionamento com ele incomparavelmente mais rico do que o que já vivenciamos.

6. Meus irmãos, vocês foram chamados para serem vencedores, que possam prosseguir então como igreja vitoriosa para a glória de Deus.


Conclusão


           Cada igreja tem o contexto histórico e cultural aos quais se encontra inserida. Que a Igreja Batista dos Guararapes possa olhar para igreja de Pérgamo, não com um olhar de julgamento, mas com um olhar de aprendiz, entendendo que também deve dar ouvido à voz daquele que tem a espada de dois gumes. Que possa então entender suas provações, e delas sair como vencedora; saber em que tem pecado contra o Senhor e se arrepender; mas sempre confiante em suas promessas gloriosas.

Salmo 15 - Perguntas necessárias, respostas implicantes

1 Quem, SENHOR, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte?
2 O que vive com integridade, e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade;
3 o que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho;
4 o que, a seus olhos, tem por desprezível ao réprobo, mas honra aos que temem ao SENHOR; o que jura com dano próprio e não se retrata;
5 o que não empresta o seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem deste modo procede não será jamais abalado.


Introdução

Muitos de nós nos preocupamos com respostas e não atentamos com as perguntas. Alguns de nós perderam a curiosidade de estar sempre se perguntado por algumas questões ou perguntando a Deus. É interessante essa característica nas crianças pequenas: sempre indagando, sempre querendo saber o porquê. Mas crescem e vão perdendo um pouco de sua curiosidade.
Para termos as respostas corretas é necessário formularmos as perguntas corretas. O nosso salmista, Davi, faz aqui duas perguntas ao Senhor, peguntas retóricas, que depois se põe a responder.




I – Perguntas que constrangem acerca da proximidade do SENHOR, V.1.

As perguntas do v. 1º tem como pano de fundo a realidade cúltica de Israel no Antigo Testamento. O que era o tabernáculo?
O Tabernáculo era o local ordenado por Deus aos israelitas onde seria realizado o culto oficial por meio dos sacerdotes. Deus ordena sua construção de modo metódico, com detalhes que deveriam ser seguidos à risca. O interior do Tabernáculo era dividido em dois cômodos: o Santo Lugar e o Santo dos Santos. No Santo Lugar encontravam-se os pães da proposição à direita e o candelabro à esquerda. Uma cortina dividia o santo lugar do Santo dos Santos. Antes da cortina ou véu ficava o altar de ouro (altar para incenso). Era no Santo dos Santos onde ficava a Arca da Aliança.
O povo poderia entrar até o pátio onde era construído o Tabernáculo, mas era necessário fazer um sacrifício de sangue, sem isso não poderia se chegar a presença de Deus. No Santo Lugar só era permitido os sacerdotes. Ali, o candelabro deveria estar sempre aceso, símbolo de que a presença de Deus não se apagava nem de dia nem de noite. Os pães da proposição simbolizavam o alimento espiritual de Deus para o povo, deles sacerdotes podiam comer livremente; e apontavam para o verdadeiro pão da vida - Jesus cristo. O altar de ouro, onde os sacerdotes queimavam incenso representa a oração do povo ao Senhor. A fumaça do incenso enchia o Santo dos Santos e o Santo Lugar com seu aroma suave. A cortina que dividia aquele lugar tinha imagens de Querubins voando. A arca da Aliança dentro do santo dos Santos mostrava que Deus está entronizado entre os Querubins.
Na Arca da Aliança que estava no Santo dos Santos em sua tampa estava o Propiciatório, onde o sangue do sacrifício anual era derramado perlo Sumo Sacerdote.
Quem subirá ao Seu Santo Monte? Uma referência ao Monte Sinai, onde foi manifestada a glória divina quando concedeu os mandamento ao povo e com ele fez a Aliança. Mas as duas perguntas tem o mesmo sentido, estão juntas apenas para reforçar a ideia apresentada pelo texto.
Esses são símbolos por excelência para o salmista falar da presença divina. Perceba a solenidade do tabernáculo. Essas perguntas tem um sentido espiritual além daquilo que já podia ser observado pelo salmista. Apenas o Sumo Sacerdote e apenas uma vez por ano, depois de se ter purificado poderia entrar no Santo dos Santos para oferecer o sacrifício pelo povo. Perguntar quem pode habitar o santo lugar é perguntar quem é digno, quem tem essa condição. São perguntas a respeito de comunhão, de proximidade.
A primeira resposta que pode ser dar é ver Cristo no Salmo. Ele como sumo sacerdote por excelência subiu ao Monte por nós. O próprio Tabernáculo é símbolo de sua obra.
A segunda resposta é que o que se segue salmo, não se tratam de qualidades para se achegar a presença do Pai, mas de qualidades que devem estar presentes na vida daqueles que em Cristo estão na presença do Pai. Assim, ninguém está apto, não há sequer um que possa dizer que vive de tal modo em integridade que poderá achegar-se ao santo monte de Deus por conta de suas ações. Jesus cristo foi o único que viveu essa perfeição.


II – Qualidades de um cidadão celestial, v.2 – 5.

No contexto do salmista ele estar apresentado a dicotomia existente entre os judeus tementes ao Senhor, aos quais em muitos momentos são chamados de justos e o hipócritas, que diziam temer a Deus, mas suas vidas na relação com os outros não demonstravam isso. Por isso ele passa a falar das relações horizontais.
Ele falar de viver em integridade. Integridade é o que mantém o nosso ser coeso, em outras palavras: ser o mesmo em qualquer circunstância, ser inteiro, completo, no sentido de viver não em busca de aparentar ser, mas simplesmente sê-lo. Nossa preocupação não deve ser meramente com a reputação. A integridade nos permite ter a consciência limpa, mesmo se a reputação for atacada.
Sendo a pessoa íntegra agirá com justiça, mesmo em meio a uma sociedade onde a injustiça impera, onde a verdade é substituída pela mentira que momentaneamente parece vantajosa. Quem é íntegro age com justiça e fala a verdade.
Tabernacular com Deus, viver no seu Santo Monte implica também conter-se para não difamar, não pecar com a língua. Muitas são as referências bíblicas de advertência a esse respeito, citarei apenas três: Tiago no cap. 3 de sua epístola argumenta de modo metafórico a dificuldade e a importância de se domar a língua. Ele diz: “É fogo, é mundo de iniquidades”, “Contamina o corpo inteiro”, “Põe em chamas toda a carreira da existência humana”, “Inflamada pelo inferno”, “é mal incontido, carregado de veneno mortífero”. Por isso atente para Pv 13.3: “O que guarda a boca conserva a sua alma, mas o que muito abre os lábios a si mesmo se arruína”. E lembre-se da advertência de Jesus: “Toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no dia do juízo” (Mt. 12:36). Assim, tenha muito cuidado em falar sobre alguém, em postar alguma na internet sobre alguém.
Quem desse modo se contém e sendo íntegro não estará fazendo mal ao próximo, não estará injuriando, mas ao mesmo tempo que não coadunará com as ações ímpias dos perversos, pois terá por desprezível seu comportamento, amará sua pessoa, mas não a honrará, dará a honra – no sentido de valor – aos que temem ao Senhor.
O salmista ainda diz que o lugar da comunhão com o Senhor não combina com se tirar vantagem de forma a explorar o sofrimento alheio. Pois maldosamente age quem empresta dinheiro com a intenção de lucrar.
Percebam meus irmãos que o salmista revela algumas características que denotam duas coisas: caráter e conduta.
O cidadão do céu, o cristão, neve ficar evidente em qualquer lugar onde se encontre o seu caráter. O seu caráter é manifesto pela sua conduta, pela forma de agir. Caráter é um conjunto de traços referentes à maneira de agir, é o que serve de base para as atitudes. Conduta é a expressão do caráter; é o que é feito.
A lista apresentada pelo salmo é exemplificativa, não exaustiva, são alguns indicadores de um coração grato por estar conduzido por Cristo à presença do Pai.
Mas ainda há algo no texto que merece ser mencionado: há uma promessa.


III – A promessa de estar inabalável, v. 5.

Perceba que é uma promessa condicional. Esteja agindo com integridade e não será abalado, fale a verdade e não será abalado. Tenha uma conduta que reflita Cristo em sua vida que você viverá de forma mais plena o privilégio de ser cristão. Há pessoas que sempre agem de forma contrária ao que o salmista expôs e imagina que vai se dá bem. De modo algum, pois: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará(Gálatas 6:7).


Conclusão

Tomás de Aquino diante da pergunta: Quais são as coisas necessárias para a salvação? Ele responde: Saber o que deve crer – Cristo; o que se deve desejar – Deus; e como se deve viver – em retidão e justiça.
O não ser abalado perpassa essa existência na maravilha de viver com o Senhor nesta vida e prossegue na eternidade, daí que o v. 11 do Salmo 16 é tão complementar à nossa reflexão: “Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente”.
E ainda:

"Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos" (Is 57.15).

Apocalipse 2.8-11 - UMA IGREJA POBRE, CONFORTADA PELO CRISTO VITORIOSO

8 Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver:
9 Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás.
10 Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.
11 Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte.

Introdução

A Etimologia do nome da cidade: Esmirna=Mirra. Mirra é uma substância extraída de uma árvore espinhosa que gosta de ficar ao sol. Dela se extrai perfume, tem uma resina que produz medicamentos e ela serve para auxiliar no embalsamento.


Elucidação

Este texto que acabamos de ler é a segunda carta das sete enviadas às igrejas na Ásia Menor. Em todas as cartas é o próprio Senhor Jesus Cristo que escreve através do seu apóstolo João. Ele é aquele que está andando no meio dos candeeiros, que são as igrejas (2.1). Ele é o dono delas. E por isso, Ele pode, tanto exortar como advertir, animar como ameaçar.
           Esta segunda carta foi dirigida à igreja em Esmirna. Esmirna era uma bela cidade. Ela era rival da cidade de Éfeso. Ela reivindicava o direito de ser a “primeira Cidade da Ásia em beleza”. Já que Éfeso ocupava este posto. Esmirna era uma cidade gloriosa. Ela com seus lindos edifícios públicos situados no alto da colina Pagos, formavam o que se chamava “a coroa de Esmirna”. A brisa ocidental vinda do mar soprava por toda cidade. Que mesmo durante o verão era uma cidade com um clima agradável. Desde o começo da ascensão do império romano, mesmo antes dos seus dias de grandeza, Esmirna era sua aliada e reconhecida como tal por Roma.
           Com toda probabilidade a igreja de Esmirna foi fundada por Paulo durante a sua terceira viagem missionária (At 19.10), entre 53 e 56 d. C. É possível que Policarpo fosse bispo da igreja de Esmirna naquela época. Ele foi discípulo de João. Fiel até à morte, este venerando líder foi queimado vivo num poste. “Deixem-me como estou. Aquele que me dá força para suportar o fogo também me dará capacidade para ficar imóvel na fogueira sem que precisem me amarrar” (Policarpo)¹. Esta igreja é uma das duas igrejas que o Senhor Jesus Cristo não critica e nem ameaça. A outra igreja é a de Filadélfia. Ela sendo fiel e sem motivo de ameaça, o Senhor se dirige de uma maneira a fortalecer ainda mais aquela igreja a permanecer firme. Ele se apresenta assim: “Ao anjo da Igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver”. Ele se apresenta a sua igreja amada como o Cristo vitorioso. Isto nos leva ao seguinte tema desta pregação:   




I – CRISTO APRESENTA-SE COMO SENHOR DA VIDA E DA MORTE, V 8.

Jesus diz acerca de si que é o primeiro e o último, o que esteve morto e tornou a viver.  Ele introduz a palavra de conforto àquela igreja lembrando a ela quem é o seu senhor. O dono da igreja é aquele que venceu a morte, aquele que ressuscitou. Eles necessitavam desse entendimento. Viviam em uma época de grande instabilidade, onde declarar-se cristão em alguns momentos poderia implicar perda de bens, separação da família ou até em morte. Nem sempre a perseguição vinha de forma oficial por parte do governo romano, às vezes eram perseguidos até pelos próprios judeus, ou pelos romanos de modo não oficial. Ser cristão então era muito diferente do que vivemos hoje no contexto do Brasil em pleno século XXI.
           A palavra de conforto neste versículo embora na época presente não nos toque coletivamente, com certeza nos fala de modo individual. A igreja não passa atualmente por perseguição por parte do Estado, mas cada um de nós podemos vivenciar momentos nos quais lembrar de Cristo como Senhor da vida e da morte traz conforto às nossas almas. Todos estamos sujeitos a passar por experiências da perda de entes familiares, e nestes momentos devemos lembrar que a vida pertence ao Senhor e que ele tem direito absoluto sobre cada uma de suas criaturas. Este conhecimento prévio nos capacita diante de situações que poderemos vivenciar.
           Mas o Senhor Jesus depois dessa introdução faz uma declaração maravilhosa sobre aquela igreja.


II – ELA É RICA INDEPENDENTEMENTE DE SEU ESTADO FINANCEIRO, V 9.

Materialmente aqueles irmãos eram pobres, embora vivendo em uma cidade rica. O termo utilizado aqui para pobreza é ptocheía, que tem o sentido de pobreza extrema, opressiva até. É a mesma expressão utilizada por Paulo em 2 Co 8.9: “...pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos”. O texto aos coríntios fala de riqueza, mas obviamente em sentido espiritual. Era o caso daqueles irmãos de Esmirna, embora pobres materialmente, mas vivenciando uma riqueza na graça de Deus, ricos para com o Senhor. Eram ricos porque havia a presença de Deus em suas vidas. Eram ricos porque não eram dominados pela avareza (Lc 12.13-21 – Jesus reprova a avareza e diz que é louco aquele que “...entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus”, v 21).
           Aqueles irmãos de Esmirna eram ricos porque buscavam viver a fidelidade ao Senhor, mesmo em meio a tribulação de perseguição por parte dos falsos judeus e a despeito da escacês material.
           No contexto deles, além de sua pobreza material extrema tinham de enfrentar a “blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás”. Os judeus difamavam o Messias e negavam a sua vinda. Esses judeus desprezaram com toda sua força o Cristo. Eles alimentavam um ódio maligno contra os cristãos. Eles arrastavam os cristãos diante dos tribunais e os acusavam injustamente. São chamados de falsos judeus porque os verdadeiros judeus são os verdadeiros herdeiros da promessa dada a Abraão, ou seja, o Israel espiritual, a igreja de Cristo formado por judeus e não judeus, portanto os verdadeiros judeus no sentido de povo de Deus. De igual modo há muitos hoje que se declaram cristãos, contudo, são antes Casa do Diabo, pois não querem para suas vidas a riqueza espiritual ofertada por Cristo, mas antes, a riqueza material ambicionada pela sua carnalidade e lhes ofertada pelo Diabo. Riqueza material sem riqueza da comunhão com Deus é ruína espiritual. Os irmãos de Esmirna sofriam pela pressão (perseguição) por parte desses judeus. À semelhança de Esmirna a igreja de nossos dias que de fato queira viver em fidelidade doutrinária estará sofrendo por observar tantas blasfêmias contra Cristo, muitas vezes que não se expressam de forma verbal, outras vezes supostamente falando em nome de Jesus, mas o conteúdo reprovável por Cristo.
           O Senhor ainda anuncia que mais tribulação viria sobe a vida daquela igreja, mas anima-os a serem corajosos.


III – ELA PROSSEGUIRÁ RICA AO VENCER AS PROVAÇÕES – O DIABO, V 10.

Aquela era uma igreja fiel, elogiada pelo Senhor por sua fidelidade. Então não é de se estranhar que padecessem perseguições, pois como escreveu o Apóstolo Paulo à Timóteo:  2 Timóteo 3.12: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos”. Mas é bom lembrar que não há conforto maior que saber da presença de Cristo em momentos assim, como ele mesmo disse, conforme relatado no cap. 14 de João, enviaria o Espírito, e, que, portanto, se faz presente pela atuação do Espírito na igreja. No mesmo capítulo há a promessa de sua vinda para levar a igreja para si, mas enquanto isso não ocorre certamente o Diabo fará forte oposição à igreja, e cabe a nós a fidelidade ao Senhor mesmo sob as condições mais desfavoráveis.
           O Senhor disse aqueles irmãos de Esmirna, que eles só iriam sofrer por dez dias. Isso significa um tempo definido. Eles deveriam guardar sua fé pura. Porque através daquele sofrimento, o Senhor estaria também provando aqueles crentes. Purificando e aumentando a fé daqueles fiéis.
           A promessa para o vencedor é a coroa da vida, a presença eterna com o Senhor. Que fique claro então que esta coroa é para todos os salvos, não diz respeito a uma recompensa especial para aqueles que foram perseguidos com risco de morte.  Mas é aqui um incentivo para prosseguir avante mesmo em face ao risco.
           Por fim, Ele reafirma a garantia mais importante para a vida da igreja, que não é que diz respeito a este mundo, mas à entrada triunfante nos céus.


IV – ELA ALCANÇARÁ RIQUEZA MAIOR NOS CÉUS, V 11.

Temos aqui reafirmada a certeza que em nossos corações de que modo algum passaremos pela segunda morte. Aqui há uma referência à declaração de condenação no juízo eterno. O dano da segunda morte não ocorrerá para a igreja, mas para aqueles que desprezaram o Senhor, e que esse desprezo é manifesto no seu comportamento como enfatiza Apocalipse 21. 8: “Quanto porém aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte”. 
           A igreja, porém, pelos méritos de Cristo tem o livramento dessa condenação garantida. Usufruirá da presença do Senhor eternamente. Não importa o quanto tenham sofrido, pois estarão finalmente de posse da felicidade perfeita. Estarão livres da natureza pecaminosa. Todo o sofrimento terá passado, e como nos diz a Palavra em uma linguagem muito bela: “E lhes enxugará dos olhos toda lágrima...” (Ap. 21.4).


Aplicação

1. Os cristãos de Esmirna foram literalmente esmagados, tornando-se um cheiro de perfume suave para Deus, mas jamais se desesperaram ou se entregaram ao materialismo. Existe, hoje, uma mensagem generalizada que o crente não pode sofrer. Existem “orações poderosas” para espantarem o fantasma do sofrimento da vida dos fiéis. No entanto, contrariando esse pensamento o apóstolo Paulo diz claramente: “Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desesperados. Perseguidos, mas não desamparados. Abatidos, mas não destruídos. Trazendo sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossos corpos”. 2 Co 4.8-10.

Rm 5.3 -  E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência,
Rm 12.12 -  Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração;
2 Co 1.4 -  Que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus.
2 Co 4.17 -  Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente;
At 14.22 -  Confirmando os ânimos dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé, pois que por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus.

2. Há tanto hoje que enfatizam a busca pela riqueza material, mas esquecem, ou negligenciam, ou deturpam malignamente a maravilhosa revelação que afirma não haver nada mais sublime do que a riqueza da presença de Deus em nossas vidas.

3. Como cristão certamente você virá a passar por mais provações em sua vida, mas digo para você: não se atemorize, olhe para a coroa da vida, ela é incorruptível, imarcessível (não murcha). Você um dia estará com o Senhor, e não há nada mais glorioso do que isso.


Conclusão

Que sejamos, meus irmãos, como aqueles crentes de Esmirna!
Perfume - O crente/Esmirna influencia o ambiente com os valores do cristianismo (perfume) mesmo quando passa por tribulações e sofrimentos pessoais.  “E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo, e por meio de nós manifesta em todo o lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem” (II Coríntios 2.14, 15).
Mendicamento - O crente/Esmirna com sua vida produz o bem para os que estão ao redor. Gera conforto e cura para os males da alma porque transmite paz.
Embalsamento - O crente/Esmirna conserva a sociedade por meio dos princípios cristãos de moral e conduta que possui. “Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens” (Mateus 5.13).



¹Que falem os primeiros cristãos